Fábio Seixas

Automobilismo e pitacos sobre tudo o mais

 

Zurique

No aeroporto de Zurique, esperando o voo para Munique. Será a 29ª e, ufa, penúltima escala da série "Um Mundo Que Torce". Mas ainda há dois duros dias de trabalho pela frente, ainda não dá para relaxar.
 
E já que tem gente reclamando que não escrevo de F-1, lá vai uma...
 
Aqui no aeroporto, há um estande de Marlboro, para venda de cigarros, lógico. A decoração toda é de F-1. E toda em cima de um mesmo piloto.

O cara deste capacete aqui...

Capacete de Schumacher no aeroporto de Zurique (Fábio Seixas/Folhapress)

Massa? Alonso? Raikkonen, o último campeão pela escuderia-parceira? Nada.
 
Ídolo é ídolo. Não importa como esteja hoje, o que faça, que seja contratado de outra equipe, que já não represente a tal marca. O que me lembra a idolatria por Maradona em Buenos Aires, no dia do jogo contra o México.
 
Messi? Tevez? Higuain? Esquece. Os argentinos vibravam mesmo quando "El Pibe" aparecia na tela, mesmo que ajeitando a gravata.
 
Ídolo é ídolo.
 
Ah, sim: vou levar um chocolate desses para cada um de vocês que entendeu que a vida não é apenas F-1 e que, às vezes, é preciso mudar de ares.
 
Vitrine da chocolateria Läderach, no centro de Zurique (Fábio Seixas/Folhapress)

Aos que não entenderam ou que queriam que eu escrevesse sobre algo que não estou acompanhando, ok, levo um chocolate também. Abaixo a amargura.

Escrito por Fábio Seixas às 06h38

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Pristina

Ontem, quando desembarquei no acanhadíssimo aeroporto de Pristina, estranhei tanta gente no cafezinho.
 
"Temos o melhor machiato do mundo. Não sei exatamente o porquê, mas tem a ver com o ritual, com a maneira como fervemos o leite", disse Illy Citaku, cineasta, meu contato no lugar.
 
"Cada coisa que tenho que ouvir...", pensei.
 
E seguimos para Pristina. Illy, o taxista e eu.
 
No caminho, os 15 km do aeroporto ao centro da cidade, enquanto engatamos na conversa, fui observando o lugar.
 
Obras pra todo lado. E eles se orgulham imensamente de cada tijolo assentado. "Esta ponte está sendo construída por engenheiros croatas. Eles são muito bom nisso", lança o taxista.
 
Intervenções militares. Oficiais da ONU e da União Europeia patrulhando as ruas, ajudando na fiscalização do aeroporto, controlando o tráfego. Havia um frisson especial ontem: Tony Blair chegaria à cidade. "Um Amigo. Um Líder. Um Herói", segundo cartazes espalhados por todo canto. O ex-primeiro ministro britânico teve papel importante no apaziguamento dos Balcãs.
 
Há gente humilde, também, pra onde você olha. "O desemprego é o grande problema hoje. As pessoas simplesmente não têm onde trabalhar; Saem todo dia de casa pra procurar alguma coisas, mas não existem vagas", fala Illy, num ótimo inglês.
 
E sua fluência no idioma tem razão de ser. Nos 90, enquanto a Sérvia tomava de assalto Pristina e a ONU bombardeava as instalações militares dos sérvios, a única saída dos kosovares eram as antenas parabólicas. Assistindo a seriados americanos, eles aprenderam inglês.
 
Bom, fiz meu trabalho por lá. Entrevistei o ex-jogador Fadil Vokrri, "o Maradona dos Balcãs", hoje presidente da Federação do Kosovo e uma figuraça que tomou cerveja e fumou enquanto conversávamos. Falei com o técnico da seleção, Albert Bunjaki. Assisti a uma peneira de garotos sub-15. E, na hora de voltar pro hotel, entre pegar um táxi e caminhar 30 minutos, fiquei com a segunda opção.
 
No táxi, você não sente o lugar. Caminhando, percebe a gente, os cheiros, as vozes, os humores. Por Pristina, percebe também as cicatrizes da guerra: passei por um mural com fotos de pessoas desaparecidas. Triste. Chocante.
 
 
Cheguei ao Grand Hotel Pristina, o melhor da cidade. Um hotel velho, sem cortinas nos quartos, com toalhas manchadas. Mas, sejamos justos, com a melhor conexão de internet que já tive nesta jornada.
 
Depois de escrever e mandar meu material para o jornal, jantei no restaurante Rings, ali perto.
 
E tanto no aeroporto como nas ruas como no hotel como no restaurante, o esforço de todos em Kosovo para tentar mostrar competência é comovente. É como se gritassem o tempo todo: "Não ligue para as aparências, estamos nos reerguendo".
 
Eles merecem se reerguer. Porque não têm culpa de terem sido jogados no absurdo caldeirão da antiga Iugoslávia após a guerra. Porque se um país significa um povo com identidade própria, única, eles cumprem o requisito. São uma nação. Não há sentido ainda ver Kosovo como parte da Sérvia, e o diplomata que pensa o contrário certamente nunca colocou os pés lá.
 
O Brasil, diga-se, ainda está entre os países que não reconhecem a independência de Kosovo. Depois de ver o que vi, é de dar vergonha.
 
Ah, sim: o machiato é mesmo o melhor do mundo.

Escrito por Fábio Seixas às 17h56

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Atenas e Londres

Foram dois dias de uma correria incrível e de recordações acachapantes.
 
Primeiro, Atenas.
 
Eu não voltava lá desde 2004, quando fiquei por um mês no dormitório da Universidade, então o Media Village, o hotelzinho para os jornalistas que estavam cobrindo a Olimpíada.
 
O calor agora era o mesmo, infernal. O trânsito, muito pior, afinal a cidade não está mais num regime de exceção. Os ginásios e estádios continuam lá, sob pesadas críticas dos locais. Os gregos com quem conversei lamentam o pouco uso, e os altíssimos custos, das instalações.
 
Passei por alguns ginásios em que trabalhei. Todos fechados. "De vez em quando tem um show da Disney, algo assim", me disse um taxista ao passar pelo local que recebeu o vôlei, por exemplo.
 
E é curioso como, com o passar das horas, as recordações vão surgindo. Uma palavra ou outra ("efharisto", "parakalo"), um hábito ou outro (o frapé, ou café com gelo)... Rua a rua, eu ia lembrando dos caminhos, das histórias, das aventuras.
 
Como no dia da maratona, em que Alex Muller, da Rádio Bandeirantes, eu e mais uma turma corremos uns 5 km, pelo próprio trajeto da prova, para chegar ao Panathinaiko pouco antes dos atletas. O trânsito estava fechado e não houve outra alternativa senão vivermos nossos minutos de heróis. Enquanto a gente corria, o público aplaudia aqueles loucos carregando pesadas mochilas e tentando alcançar o estádio para cobrir a chegada. Inesquecível.
 
Bom, de Atenas peguei um voo para Londres.
 
E aí, novas recordações. Porque ontem, 7 de julho de 2010, os atentados à capital inglesa completaram 5 anos. E, coincidentemente, eu estava por aqui.
 
Na véspera, o expediente foi em Paris, para cobrir a festa pela escolha da cidade, favoritíssima, como sede dos Jogos de 2012. Festa que não houve, como todos sabem. Londres ganhou.
 
Um péssimo dia, com aquele sentimento de estar no lugar errado na hora errada. Restou o consolo de que todo o resto da imprensa havia feito a mesma opção.
 
No dia 7, logo cedo, peguei o voo para Londres. Era uma quinta-feira, e no dia seguinte começariam os treinos para o GP da Inglaterra.
 
Quando cheguei, Heatrow estava um caos. O Flavio Gomes, que havia chegando minutos antes e me esperava ali, contou o que havia acabado de assistir pelas TVs do aeroporto.
 
Não tivemos dúvidas. Silverstone, o cazzo. Pegamos um carro e fomos direto pro centro de Londres. Um loucura, trabalho intenso, dezenas e dezenas de ligações de rádios e emissoras de TV de todo o Brasil, matérias para o jornal, discussões com policiais, multas de trânsito... Outro dia inesquecível.
 
Como está sendo esta maluca viagem por 31 países da Copa em 31 dias. Preciso desligar agora. Em 30 minutos tenho mais um voo, o embarque começa daqui a pouco. Até.

Escrito por Fábio Seixas às 04h13

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Bratislava

O castelo, às margens do Danúbio, com vista para a Áustria (Fábio Seixas/Folhapress)
 
Ok. Então já que você vai para Liubliana na próxima viagem à Europa, aproveite e dê uma passada por Bratislava.
 
O centro histórico é super conservado, e, do castelo, é possível ver a Áustria. Que é logo ali. Ou aqui.
 
Sim, porque escrevo em território austríaco. Era muito mais fácil pegar um voo aqui do que no aeroporto da capital eslovaca.
 
De Brastislava ao aeroporto de Viena, um ônibus de 40 minutos. O problema era que o ônibus estava lotado: três passageiros no total. Enfim, um momento tranquilo nessa correria. E mais um meio de transporte nesta maratona que já teve muito avião, trem e até balsa.
 
É chegada a hora de mais uma prestação de contas.
 
O papelzinho que eu levo junto ao passaporte indica o seguinte, desde 11 de junho:
 
114.263 km
37 voos, sendo 27 na janela, 5 no meio e 5 no corredor
26 companhias aéreas
34 passagens pelo raio-x
8 vezes a mala foi aberta
8 vezes fui revistado
5 vezes serviram omelete no café da manhã
melhor companhia aérea: Emirates
pior companhia aérea: Copa
 
E vamos nessa, porque ainda tem bastante estrada pela frente...
 
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Escrito por Fábio Seixas às 05h27

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Liubliana

Tive duas agradáveis surpresas até agora nesta empreitada.
 
A primeira foi logo na terceira parada: Argel. Cidade bonita, com seus prédios brancos cobrindo a montanha, debruçados no Mediterrâneo. Um pouco de caos, sim, mas é do jogo.
 
A segunda aconteceu ontem: Liubliana, na Eslovênia, é sensacional.
 
Pra começar, é difícil acreditar, desde o aeroporto, que você está chegando à capital de um país. Tudo é acanhado, tudo é delicado, tudo é limpo. Tudo é lindo.
 
Fiquei no Hotel Slon, às portas da Cidade Antiga. Do hotel ao rio Ljubljanica, uma caminhada de 5 minutos.
 
 
 
É ali que a vida acontece: barzinhos, restaurantes, lojas, passeios de barco, aluguel de bicicleta... E um bondinho que leva até o castelo, no topo da montanha.
 
Fiz meu trabalho e à noite, pela primeira vez desde a Itália, consegui jantar. Fui ao Sokol, restaurante de comida típica eslovena, ali na Cidade Antiga, claro. Em homenagem ao Obelix, comi um enorme prato de javali. Em homenagem a mim mesmo, provei uma cerveja produzida no próprio restaurante.
 
 
 
Tudo muito bom. O preço, 26 euros, o que não é cara em se tratando de Europa.
 
Se minha mochila não fosse tão limitada, por motivos óbvios, eu teria levado umas duas ou três garrafas.
 
Sério: no próximo tour pela Europa, incluam Liubliana. E bebam uma Sokol por mim.
 
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Escrito por Fábio Seixas às 15h30

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Copenhague

É um país sui generis, a Dinamarca.
 
Um lugar organizadíssimo e que, por isso, está sempre ali nas primeiras posições dos rankings de qualidade de vida, de excelência na saúde, de exuberância econômica. coisa e tal.
 
Mas, pelo mesmo motivo, é um país complicadinho de visitar.
 
São muitas regras. Muitas. Para tudo. Regrinhas peculiares, em vários casos.
 
E quem chega, mesmo tendo boa milhagem, às vezes demora para entender como as coisas acontecem.
 
Por exemplo: tentei credenciamento para o Festival de Roskilde, um dos cinco maiores da Europa. A ideia era ver Alemanha x Argentina lá, no meio dos malucos.
 
O site do festival é completíssimo, muito bom. Mas para se credenciar, apenas por fax.
 
Fax!!! Ainda usam isso?
 
Bom, eu mandei o tal fax há alguns meses. Até hoje não chegou a resposta.
 
"Eles criam as regras e as seguem. Simples assim. Ninguém pergunta se a regra é estúpida ou não", disse um norueguês que conheci na tentativa de comprar um ingresso para o festival. Tentativa frustrada.
 
Outro exemplo: fui comprar uma passagem de trem numa máquina na estação central. Comprei. Na hora de embarcar, me informaram que aquela passagem só valia a partir das 16h. Eram 11h. Mas em nenhum momento, na moderna máquina de venda de passagens, com tela em inglês, havia esse ressalva.
 
Não estou dizendo que eles estão errados. Longe disso. Copenhague é lindíssima, tudo funciona, a segurança é total, as pessoas foram todas muito simpáticas.
 
Mas a Dinamarca é um lugar... singular. E talvez eles estejam certos. Provavelmente estão, dizem os índices.
 
Fica, porém, a dica: deveriam distribuir um "manual de instruções" no avião.
 
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Escrito por Fábio Seixas às 15h09

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PERFIL

Nina Horta Fábio Seixas, 37, é jornalista com mestrado em Administração Esportiva pela London Metropolitan University, da Inglaterra, e Coordenador de Produção da Sucursal da Folha no Rio. É colunista de automobilismo da Folha e do UOL.


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