Fábio Seixas

Automobilismo e pitacos sobre tudo o mais

 

Madri. E fim de viagem

As pessoas mais próximas estranharam meu comportamento nos dias anteriores ao embarque para a África do Sul. E talvez a turma em Johannesburgo também. Eu estava calado.
 
Agora posso dizer: era medo, um medo danado.
 
Medo de que desse errado. Porque ouvi muita gente dizer que era impossível, que algum problema iria acontecer, que era tecnicamente inviável ir para 31 países em 31 dias, que voos seriam perdidos ou cancelados, que minha saúde não aguentaria.
 
E havia muito em jogo para que algo desse errado. Após nove meses de planejamento, eu mesmo não me perdoaria se por algum motivo a jornada fosse interrompida no meio. Ou mesmo no começo. Porque os primeiros dias foram pesados.
 
Saí de Johanneburgo na noite da abertura, 11 de junho, e só fui tomar banho e dormir numa cama em Douala, Camarões, no dia 14. Entre uma coisa e outra, escalas malucas.
 
Da África do Sul até a Nigéria, parada no Quênia. Da Nigéria para a Argélia, um voo até Paris. Da Argélia para Camarões, escalas no Líbano, na Etiópia (e como eu corri por aquele aeroporto para não perder a conexão...) e no Gabão. De Camarões para Costa do Marfim, pouso no Benim. Da Costa do Marfim para Gana, uau, um voo direto. Mas de Gana para a Coreia do Sul, bem, escalas na Nigéria (de novo) e nos Emirados Árabes Unidos.
 
Ainda dormi uma noite em El Salvador (paradinha antes de Honduras), comprei camisetas e meias no Havaí (no caminho do Japão para o México), perdi e achei o computador na Colômbia (rota EUA-Chile) e, na Europa, passei por Áustria, Hungria e República Tcheca.
 
Não perdi nenhum voo. Em parte por um trato comigo mesmo de chegar sempre duas horas antes, não importa o que acontecesse nas matérias. Em parte porque as coisas funcionam aqui fora, mesmo em países que julgamos mais atrasados. Nenhum voo foi cancelado. Tudo funcionou ao redor do mundo, o que me leva a imaginar que há algo de muitíssimo preocupante na aviação brasileira.
 
É claro que passei por alguns perrengues. O campeão foi o já citado esquecimento do computador num avião da Avianca, em Bogotá.
 
Mas houve mais... Enfrentei problemas para conectar internet na Costa do Marfim, na Nigéria e, acreditem, nos EUA. Em Argel, o carro que ia me levar pro aeroporto ficou sem bateria no momento em que o Ali, motorista gente fina, bateu a chave. Em Douala, a Air Ivoire me informou que minha passagem não existia, nunca tinha sido emitida. Por sorte, comprei uma ali na hora, no escritório da companhia, após passar por um buraco na parede. Em cash, claro, porque não rola cartão de crédito.
 
Sem contar que o meu visto para a Nigéria só ficou pronto às 18h do dia do meu embarque para essa maratona toda. Em Brasília. O passaporte só chegou às minhas mãos em Cumbica, já com o check-in rolando, obra do prestativo Adriano Santos Oliveira, da editoria de Esporte.
 
Havia, também, a questão do planejamento. Porque saí do Brasil com toda a primeira fase montada. Países que dificilmente avançariam para as oitavas seriam os visitados nas primeiras duas semanas.
 
O acerto passou longe dos 100%, graças ao fiasco europeu. E daí começou a fase de torcer contra uns, a favor de outros. Se dois países já visitados fizessem a final, seria o fim do meu mundo.
 
Se "queimei" um lado da tabela ao ir para a Holanda ver o jogo com o Brasil, do outro lado eu fui deixando Espanha e Alemanha mais para o fim. Deu certo.
 
Escrevo este post de Madri, depois de uma noite de muita festa pelas ruas, uma celebração com jeito de desabafo, de missão cumprida, de quem conseguiu algo que os outros diziam ser impossível. 
 
Sei como é o sentimento.
 
À minha maneira, tentei celebrar: caindo na cama e dormindo muito. Não consegui. Às 9h, a camareira invadiu o quarto.
 
Sobre minha mesa, papéis amassados junto ao passaporte fazem um balanço da empreitada.
 
Primeiro, algumas impressões/constatações/descobertas/devaneios muito úteis:
 
- Para as companhias aéreas, a diferença entre um homem e um rato está na categoria anotada no cartão de embarque;
 
- O sujeito que inventou aquele secador de mão com ar quente nunca lavou o rosto;
 
- Não precisa checar o cartão de embarque: o seu portão será sempre o último, do último terminal. E provavelmente você terá que pegar um ônibus até o avião;
 
- Americanos têm fissura por bagagem de mão: são sempre enormes, recordes mundiais. E passar no raio-x é a melhor parte da viagem para eles;
 
- Todas as balanças de bagagens de todos os aeroportos da Itália estarão sempre quebradas;
 
- Sempre faltarão 10 centavos no seu bolso, qualquer que seja a moeda, para tomar um cafezinho no trânsito do aeroporto;
 
- O táxi da África do Sul é o segundo mais caro do mundo, só perdendo para o do Japão. E na Eslovênia e na Eslováquia, os táxis são baratos, os motoristas é que roubam mesmo;
 
- O café espresso mais caro do mundo está no aeroporto de Praga: 4,20 euros, ou R$ 9,32. E é ruim;
 
Tem mais, mas deixo para outra hora. Nos números, ficou assim:
 
125.124 km
43 voos, sendo 32 na janela, 5 no meio e 6 no corredor
29 companhias aéreas
40 passagens pelo raio-x
10 vezes a mala foi aberta
8 vezes fui revistado
6 vezes encarei omelete no café da manhã
melhor companhia aérea: Emirates
pior companhia aérea: Copa, mas a TAM merece menção
 
A todos os que acreditaram e deram uma força danada com e-mails, mensagens no blog, telefonemas, recados no MSN, no Twitter ou mesmo com pensamento positivo, um obrigado de 125.124 km.
 
É chegada a hora de desligar o computador um pouquinho. 
 
Antes, deixo aqui três minhas fotos preferidas da viagem. A primeira, na periferia de Abidjan, na Costa do Marfim. A segunda, em Seul. A terceira, aqui em Madri. 
 
Porque escancaram aquilo que encontrei de comum em lugares tão diferentes e tão distantes: a paixão pelo futebol.
 
 
 
 
Volto logo. Até.

Escrito por Fábio Seixas às 05h48

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Munique

Munique estava linda neste sábado. Porque fazia muito calor, e todos saíram para os parques. Crianças brincavam nas fontes, as mesinhas nas calçadas estavam cheias, as ruas, lotadas.
 
E os alemães me deram uma lição. Porque imaginei uma torcida insossa, distante, desinteressada. E o que vi no Estádio Olímpico de Munique foram 5.000 alemães torcendo muito pelo time e com o pensamento lá na frente, em 2014.
 
O discurso era de que este time ainda é muito jovem. E que, com apoio agora, pode chegar ao título em 2014.
 
Um lição.
 
Agora, com licença, que vou correr por aqui. Cheguei a Madri, o 31º destino em 31 dias.

Escrito por Fábio Seixas às 10h14

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PERFIL

Nina Horta Fábio Seixas, 37, é jornalista com mestrado em Administração Esportiva pela London Metropolitan University, da Inglaterra, e Coordenador de Produção da Sucursal da Folha no Rio. É colunista de automobilismo da Folha e do UOL.


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